29/05/2014

Tecnologia é aliada no aumento da eficiência e redução de custos no transporte

Engenheiro da computação, Daniel Haro de Moraes, fala sobre sistemas e aplicativos com várias finalidades: do controle do abastecimento dos veículos à gestão da frota.

Arquivo pessoal

O mundo atual exige agilidade e eficiência nos serviços prestados por empresas de qualquer setor da economia. A busca por processos mais rápidos, que sejam executados com segurança e que reduzam os custos das empresas, é uma demanda urgente. É nesse sentido que a tecnologia da informação passa a ser uma grande aliada.


No setor de transporte, já existem diversos sistemas que oferecem as mais variadas formas de aplicação: do controle do abastecimento dos veículos à gestão da frota. 

Quem falou sobre o assunto à Revista CNT Transporte Atual foi Daniel Haro de Moraes, fundador da Botunix, empresa especializada na criação de sistemas para computadores convencionais, smartphones e tablets, além de aplicativos e games.

Com quatro anos no mercado, a Botunix já desenvolveu três sistemas relacionados à frota e ao controle de cargas. O primeiro permite identificar os itens que estão sendo carregados ou descarregados de um caminhão por meio de leitor de código de barras. O segundo é voltado para o controle de locadoras de veículos que disponibilizam o serviço de motorista conjugado. E o terceiro, um sistema de controle de frota. Todos eles podem ser acessados de qualquer lugar, desde que o cliente esteja conectado a internet.

Moraes é formado em engenharia da computação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, recentemente, esteve na Finlândia para um curso sobre empreendedorismo e desenvolvimento de aplicativos.

Quais as vantagens e as desvantagens de se ter a tecnologia como aliada das empresas de transporte de todos os modais (rodoviário, ferroviário, aéreo e aquaviário)?

Caso a empresa consiga a implantação da tecnologia correta, os processos ficarão mais formais e automatizados. E, com isso, ela ganhará agilidade, disponibilidade de informações e poderá diminuir seus custos e aumentar sua eficiência.  As desvantagens são um leve aumento de burocracia e a necessidade de pessoal bem treinado e com conhecimento para operação da tecnologia implantada. Existe também uma barreira, que é a crítica por parte dos colaboradores, que tenderão a não utilizar o sistema.

Quais tipos de softwares voltados para as empresas de transporte já existem no mercado? Qual a aplicação deles?

A maioria dos sistemas disponíveis ainda é de controle de frota, desenvolvido no modelo cliente/servidor, que não demanda muita mão de obra especializada para o seu desenvolvimento. Porém, quanto ao acesso, à manutenção e à atualização, eles são um pouco limitados. Uma categoria de sistema que está sendo muito utilizada atualmente são os de rastreamento de frota, tanto pelo cenário de crimes nas estradas brasileiras quanto pelo mau uso da frota. O controle de abastecimento é outra categoria de sistema que está bem ativa no mercado, criando um cenário para minimizar as fraudes e os erros.

As empresas de transporte reconhecem a importância e já utilizam a tecnologia da informação em seus procedimentos?

Reconhecem com certo receio e, talvez por isso, ainda não usufruam de toda a tecnologia disponível no mercado. A maioria das empresas ainda vê a tecnologia da informação como um custo necessário, e não consegue compreender que na verdade é um investimento. Se o sistema for considerado como um custo, então ele não deve ser implantado.

Nas empresas de logística, a aceitação e a utilização da tecnologia são maiores?

No cenário atual, sim. Isso acontece porque existe uma necessidade implícita às empresas de logística de serem muito eficientes e trabalharem com o máximo de informações, ou seja, o próprio negócio demanda que seja feita a melhor escolha entre todas as opções disponíveis. Fazer isso sem o uso de tecnologia é praticamente impossível. As transportadoras, só recentemente, passaram a agregar tecnologia às suas operações. Porém, as tecnologias empregadas são praticamente as mesmas, sendo que as transportadoras possuem ainda mais opções, com os novos sistemas de controle e de comunicação que estão sendo inventados. Além disso, muitas transportadoras também são empresas de logística e, se observarmos, elas já são mais informatizadas que as demais.

O que já existe no mercado para esse setor de logística?

Módulos que podem ser adicionados aos sistemas de controle das empresas. Eles geralmente são desenvolvidos sob demanda e integram compra, venda, produção, estoque, armazenamento, transporte, entrega e recebimento, tudo isso analisado com muito business inteligence. Com esses módulos integrados é possível gerenciar a logística de qualquer empresa. Existem sistemas prontos para isso, mas os melhores são os feitos sob demanda ou os altamente configuráveis, já que cada empresa possui sua realidade e necessidade.

Investir em tecnologia é muito caro? Qual o prazo de retorno?

Isso depende muito. A tecnologia é muito ampla para ser utilizada nesse setor, aí fica a critério de cada empresa até onde deseja chegar. Os sistemas da Botunix geralmente são locados por usuários, diminuindo dessa forma a imobilização de capital necessário para a implantação do sistema, além de o custo ficar adequado ao tamanho de cada empresa.

A tecnologia da informação pode ser utilizada por empresas de qualquer porte?

Com certeza. Como a tecnologia é muito flexível, ela pode ser implantada desde empresas que possuam uma única pessoa até em empresas com diversas filiais espalhadas pelo país. É claro que sempre tem que se levar em consideração o tipo de tecnologia que vai ser utilizado em cada caso. Se o problema for subdimensionado, então a tecnologia não será suficiente para resolvê-lo. Porém, se esse for superdimensionado, então o custo para solucioná-lo será inviável.

Quais cuidados devem ser tomados antes de informatizar os sistemas dentro das empresas?

A primeira coisa que peço para os clientes observarem é se o processo que eles executam é bem formalizado. O maior erro que uma empresa pode fazer é tentar informatizar processos que ainda não são bem definidos, isso custará muito dinheiro e tempo e nunca será concluído. Outra coisa que deve ser observada é consultar mais de um especialista para cada sistema a ser desenvolvido, pedindo sempre que ele tenha alguma opção de integração com algum sistema futuro de outro desenvolvedor. Também é necessário observar se os funcionários da empresa estão aptos a trabalhar com o sistema a ser desenvolvido. E, por fim, tem de fazer uma conta rápida para ver se o sistema trará algum lucro para a empresa. Porque instalar um sistema simplesmente por tê-lo não agrega valor nenhum.

O que é melhor: desenvolver a tecnologia dentro da empresa com uma equipe própria ou terceirizar esse serviço?

Essa é uma questão complicada, pois tanto uma opção como a outra pode levar a resultados bons ou ruins. O problema de desenvolver uma solução dentro da própria empresa é que geralmente elas contratam alguns programadores e os deixam lá, sem um gerente especializado em tecnologia para orquestrá-los. Além disso, a empresa perde um pouco o seu foco. Alguns sistemas demoram anos para ficarem prontos, e o custo com programadores não é baixo, já que é uma mão de obra muito qualificada. A única vantagem desse esquema é que a empresa fica detentora do código fonte e pode fazer as alterações que desejar sem muita burocracia e alteração de valores. Quando uma empresa terceirizada é contratada, deve-se notar a qualidade da equipe e a estabilidade da empresa no mercado, já que um bom dinheiro será investido. A vantagem desse modelo é que geralmente uma equipe especializada trabalhará no desenvolvimento e na implantação, e o sistema sairá em um tempo menor e mais bem elaborado.

Na área de transporte, o excesso de burocracia e de papéis é apontado como um grande entrave. De que maneira a tecnologia da informação pode auxiliar na solução desse problema?

O ideal seria que os papéis já tivessem sido digitalizados, ou seja, antes de sair da empresa tudo fosse cadastrado na internet e ficasse lá disponível para qualquer eventual necessidade, exatamente como já é feito com a nota fiscal eletrônica e o CT-e [Conhecimento Eletrônico de Transporte]. Para os procedimentos internos da empresa, o ideal é automatizar o máximo possível, utilizando controles por meio de códigos com leitura digital e sistemas integrados pela internet. Dessa maneira, haveria uma eliminação completa de papéis e uma maior formalização dos processos, além de aliviar o excesso de burocracia.

O governo federal já trabalha na implantação do projeto Brasil-ID, que prevê a colocação de chips nos veículos para agilizar os procedimentos de despacho de cargas nas fronteiras. Como o senhor avalia essa iniciativa?

Essa é uma iniciativa muito bem-vinda e ambiciosa. É uma maneira de usar a mais alta tecnologia para reduzir papéis e não diminuir a burocracia, mas sim deixá-la mais eficiente. A implantação desse sistema melhorará a identificação do veículo e de sua carga nas fronteiras, já que tudo estará interconectado com o MDF-e [Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais]. Assim, pelo simples fato de um caminhão passar pelo portal, toda sua documentação já estará disponível para o fiscal, os transportadores e a empresa. O único problema é o governo realmente implantar o projeto e solucionar alguns problemas técnicos e estruturais que as fronteiras, tanto estaduais como federais, apresentam no Brasil.

Em tempos de discursos sustentáveis, como a tecnologia da informação pode auxiliar as empresas?

A tecnologia da informação deve ser usada para que gere algum benefício ambiental ou econômico. Não é simplesmente colocar um sistema no ar e achar que estará economizando papéis, tempo e energia. Um sistema mal-adaptado às necessidades da empresa pode aumentar a necessidade de mão de obra e o consumo de energia elétrica. Além de geração de lixo eletrônico, que está se tornando um problema grave. Porém, com um sistema bem adaptado, existe uma diminuição significativa de mão de obra, do uso de papéis e do consumo de energia. Os sistemas em nuvem (maneira de arquivar dados em um servidor externo) melhoram esse desempenho por eximir o custo de implantação e manutenção de servidores dentro da empresa, que ficam ligados 24 horas por dia, mas são utilizados por um período 60% menor. Na nuvem, os servidores são compartilhados, aumentando esse percentual de uso para mais de 80%, diminuindo o impacto ambiental e o consumo de energia.

É possível prever o que pode estar disponível em termos de tecnologia para as empresas de transporte em um futuro próximo?

Acredito que o futuro está nos aplicativos para smartphones e numa tecnologia chamada big data. Os smartphones podem formar uma rede de informação bem mais poderosa que a dos desktops e notebooks. Além disso, a usabilidade e o acesso a esses dispositivos são muito mais simples e econômicos. A tendência dos sistemas de controle de frota é ficar muito mais “social” do que administrativa. Os smartphones já possuem câmeras de vídeo, GPS, leitores de códigos, internet, acelerômetro, tudo integrado. A questão agora é usar a imaginação para integrar isso de forma útil para as empresas de transporte. Já o big data é decorrente da quantidade de informação que temos disponíveis em diversos canais eletrônicos, porém seu processamento é complexo e não pode ser feito por meio de modelos convencionais. Mas existem técnicas que podem criar análises extremamente úteis sobre essas informações, gerando previsões e criando padrões para cenários extremamente complexos, como é o transporte. Imagine ser possível analisar todas as informações de trânsito disponíveis para a cidade de São Paulo e inferir melhores rotas para determinadas horas de determinados dias? Ou então sincronizar o acesso à cidade com outras empresas de transportes? Isso geraria economia e melhora na qualidade do serviço sem precedentes.​ 

 

Livia Cerezoli
Agência CNT de Notícias