04/11/2016

​Qual a importância de um país ter uma política de eficiência energética?

Por Cristiano Façanha*

Foto: Júlio Fernandes/Agência FullTime

Mais de 60% do combustível utilizado no setor rodoviário no Brasil é consumido por veículos pesados, e projeções econômicas indicam que tal consumo crescerá mais rapidamente do que o consumo do setor de transportes, tanto no Brasil como em nível mundial. E como o consumo energético está diretamente relacionado à emissão de gases de efeito estufa, uma política de eficiência energética também trará benefícios climáticos.

Existe uma correlação forte entre atividade de veículos pesados e o desenvolvimento econômico. O diesel, primordialmente dedicado ao setor de cargas, é subsidiado com o intuito de promover o crescimento econômico do país. O transporte de mais carga por maiores distâncias com um menor consumo de energia faz sentido econômico, pois reflete o uso efetivo de recursos públicos, ao mesmo tempo em que promove o crescimento econômico do Brasil.

De acordo com dados da CNT, o consumo de combustível representa aproximadamente 30% dos custos operacionais das transportadoras no Brasil, e a melhora da eficiência de veículos pesados contribuirá tanto para a redução dos custos de frete como para a lucratividade das transportadoras. Uma política de eficiência energética também pode promover a introdução de novas tecnologias, assim incentivando a inovação tecnológica da indústria automobilística.

Uma política de eficiência energética para veículos pesados deve incluir não somente a eficiência dos veículos, mas também a eficiência das operações e do sistema. Por exemplo, a diminuição do número de viagens vazias contribui para a eficiência das operações e do sistema. Exemplos de medidas e políticas para a melhora da eficiência energética incluem padrões regulatórios de eficiência para veículos, instrumentos fiscais, investimentos em infraestrutura, medidas de mercado como programas de frete verde, medidas de informação e treinamento aos motoristas, entre outras.

Para o desenvolvimento de uma política de eficiência energética efetiva, é necessário um grande embasamento técnico, incluindo o conhecimento de dados da eficiência da frota atual, do potencial técnico e custos de futuras tecnologias e do desenho de diferentes programas e políticas. Por exemplo, vários estudos de tecnologias indicam que a eficiência de veículos pesados novos pode ser melhorada por 50% até 2020, por meio de uma combinação de motores e transmissões mais eficientes, defletores aerodinâmicos, pneus de baixa resistência, materiais mais leves, hibridização e melhoras na condução e operação.

Os Estados Unidos recentemente aprovaram padrões de eficiência para veículos pesados novos que reduzirão o consumo de combustível dos veículos novos de 6% a 23%, baseados em tecnologias cujo retorno do investimento é de menos de dois anos. O conhecimento de melhores práticas internacionais permitirá que o Brasil se concentre nas políticas e tecnologias que mais se apliquem a um contexto brasileiro.

Uma política de eficiência energética bem desenhada e implementada trará benefícios econômicos e ambientais ao Brasil. E seu sucesso dependerá da integração de interesses da sociedade, do governo, da indústria, do meio acadêmico e do terceiro setor.

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​Confira aqui apresentações, fotos, vídeo e matérias do 1º Seminário Internacional sobre Eficiência Energética de Veículos Pesados.​

 

* Cristiano Façanha coordena as atividades do International Council on Clean Transportation (ICCT) no Brasil.