Por Cynthia Castro
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O uso mais moderado dos recursos hídricos e a aplicação de sistemas de reutilização são práticas que se tornam cada vez mais urgentes, ao se pensar que a escassez de água é um problema evidente em algumas regiões e pode piorar com o aquecimento global. As possibilidades de reúso são enormes, passando pela agricultura, indústria, área urbana e por medidas aplicadas dentro de casa. No transporte, por exemplo, uma empresa de ônibus pode economizar em torno de 40% da água, ao implantar um processo de reutilização para a lavagem dos veículos.
Entretanto, de forma geral, o Brasil está atrasado em relação à introdução de práticas de reúso, principalmente na agricultura, que utiliza 70% do consumo total de água. Para estimular a conservação e oferecer recursos técnicos sobre como reutilizar, o Cirra (Centro Internacional de Referência em Reúso de Água) desenvolve pesquisas e projetos. O centro é vinculado à Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo). Na avaliação do diretor e fundador, Ivanildo Hespanhol, falta no Brasil vontade política e também um arcabouço legal. Hespanhol é professor titular da Escola Politécnica, na área de engenharia ambiental. Ele é engenheiro civil e sanitarista, doutor em engenharia ambiental.
Leia a entrevista.
Ao falar de escassez de recurso hídrico, estamos pensando exatamente em quê? Em um conceito que já se aplica hoje em várias regiões?
Esse é um problema um pouco controverso. Já temos em algumas áreas, no Oriente Médio, no norte da África, regiões com estresse hídrico grande. A região metropolitana de São Paulo é crítica na oferta de água. Não é só o problema da quantidade, mas da qualidade. Temos mananciais cada vez mais poluídos e vamos ter cada vez mais problemas para tratar a água. São 20 milhões de habitantes e estamos na cabeceira do rio Tietê. A água disponível não é suficiente. Estamos então trazendo água cada vez de mais longe. É o paradigma dos romanos, com os aquedutos romanos.
A escassez tende a piorar com o aquecimento global?
Sem dúvida. Se acontecer o que está se falando do aquecimento global, vamos ter uma piora muito grande. Em termosde sustentabilidade, vai ficar extremamente crítico. Vamos ter áreas com menos precipitação, menos escoamento superficial.
Nesse contexto, o reúso torna-se mais fundamental?
A região metropolitana de São Paulo, por exemplo, é abastecida hoje com 70 metros cúbicos por segundo, dos vários mananciais. São 70 mil litros por segundo de
água considerada potável, que usamos para lavar rua, caminhão, para chafariz, para preparar concreto, para abastecer as casas. Estimo que em torno de 30 metos cúbicos são utilizados para fins potáveis – beber, cozinhar, tomar banho. Os outros 40 poderiam ser água de reúso ou de outras fontes, como águas pluviais. E, geralmente, 80% desses 70 metros cúbicos por segundo viram esgoto.
O senhor citaria algum setor que tem aplicado o conceito do reúso no Brasil?
A indústria vem se preocupando com a questão de recursos hídricos e mudou um pouco o enfoque. Antes, gestão ambiental era considerada um tormento para o industrial e hoje virou ferramenta de promoção. Há empresas que deixaram de investir em propaganda e marketing e passaram a investir na imagem ambiental, dizendo que trata efluentes, coleta água de chuva e reúsa os efluentes.
Qual exemplo o senhor citaria?
A indústria, antes de pensar em reúso, tem trabalhado na gestão da demanda, com a setorização do consumo. Há cinco ou dez anos, o industrial não se preocupava com a água, que era abundante e não era cobrada. Grande parte das indústrias não sabe onde gasta água. Na setorização, a gente faz um sistema telemétrico, online, para saber quanto ele gasta para a lavagem de piso, de veículo, de peça. Isso é computado e há como controlar.
Eventualmente, pode vir uma mudança de processo. A indústria está trabalhando nas duas pontas. Procura economizar água e reduzir a outorga de captação. E procura tratar o efluente e reusar, com benefício econômico e ambiental.
Dá para estimar a economia?
Quando o industrial nos procura, ele faz três perguntas: quanto eu vou gastar para instalar uma estação de tratamento, quanto tempo vou demorar para recuperar o
capital e quanto vou economizardepois. O centro tenta responder essas perguntas. Mas cada caso é um caso.
Na área de transporte, onde há maior potencial para o reúso?
Em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, por exemplo, há muitos postos de gasolina fazendo o reúso. Algumasempresas (de ônibus) implantaram verdadeiras estações de tratamento para coletar água de chuva ou na lavagem de chassis. Uma delas lava emtorno de 400 ônibus por dia e gasta 400 litros de água para lavar um ônibus. Quando entra no setor de lavagem, a água é coletada em uma canaleta, é tratada e reusada.
É possível quantificar o benefício econômico?
Cada caso tem um investimento de tratamento diferente. Mas é possível economizar pelo menos 40% de água (ao reusar para lavagem). Temos um dado em
relação ao reúso em edificações, prédios comerciais ou residenciais. Se a gente pegar o esgoto do prédio, tratar, fazer uma caixa separada e utilizar para descarga,
há uma economia de 30% na conta de água. Se um condomínio grande utilizar a água reciclada para lavagem de garagem, de veículos e irrigação de áreas verdes, a economia pode chegar a até 70%.
O senhor citaria outro potencial na área de transporte?
No Japão, a lavagem de trens é feita com água reusada. A empresa pode pegar o próprio esgoto dela, tratar e reusar.
Economicamente, é viável implantar um processo tecnológico de reúso da água na lavagem de ônibus, por exemplo?
O retorno desse investimento é muito rápido. Em cerca de três anos, aproximadamente. Depois, a economia de água poderia ser em torno de 40%.
Nos modais aquaviário e aéreo, o senhor citaria algum exemplo?
Estamos fazendo (o Cirra) o projeto do aeroporto de Guarulhos (SP). Guarulhos tem dois terminais hoje. Com o terminal 3, que será construído, deve-se chegar a
cerca de 30 milhões de passageiros/ano. Estamos fazendo um estudo de reúso, captação de água de chuva, dos telhados e da pista. Também para tratar todo o esgoto do aeroporto.
Onde essa água será reutilizada?
Na lavagem de pista, que consome uma quantidade muito grande de água porque tem aquelas ranhuras e tem que ser lavada com alta pressão. Também na lavagem de
aeronaves e na irrigação de áreas verdes. Vai ser utilizadaainda nas torres de resfriamento do sistema de ar-condicionado de todo o aeroporto e nas caixas de descarga do terminal três. O potencial de reúso é de mais de 50%. Estamos fazendoestudo piloto agora. A ideia é replicar para 36 aeroportos.
Nos navios, o senhor citaria alguma experiência?
Navio faz muito reúso. Para as piscinas, por exemplo, tratase e usa-se água do mar. Também há sistemas de tratamento de esgoto para usos nãopotáveis. Todo o setor de transporte, como aéreo, marítimo,ferroviário e rodoviário, pode implantar práticas de reúso.
A agricultura merece prioridade nas ações no Brasil, já que consome 70% da água utilizada?
O governo deveria desenvolver programas nessa área. Há, por exemplo, a possibilidade de coletar o esgoto, tratar e utilizar na agricultura. O esgoto tratado não leva omente água, leva o húmus. A matéria orgânica aumenta a capacidade do solo em reter água, qualificamelhor o solo, leva micronutrientes. É extremamente benéfico, sob o ponto de vista de produtividade agrícola. E há ainda o benefício de que as cidades teriam esgoto tratado. Mas há uma reação psicológica. Tem gente que fala ‘eu não como alface irrigada com água de reúso’. Nossa cultura não aceita muito. Mas isso necessita de uma elucidação, de educação ambiental.
O que o senhor diria para as pessoas que pensam assim?
Podemos tratar um esgoto para irrigar hortaliças que são ingeridas cruas. Sabemos como tratar isso e de forma segura. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estabeleceu as diretrizes, visando a proteção da saúde pública. Há padrões adotados, conforme essas diretrizes. Se os padrões forem seguidos, não há porque se preocupar. Mas ainda não temos esse padrão no Brasil. O país tem apenas a portaria 54, que é genérica. Precisamos de um arcabouço legal que especifique os tipos de reúso e estabeleça os padrões de qualidade, baseado nas diretrizes da OMS.
Quais exemplos o senhor citaria no mundo?
Há sistemas no mundo inteiro, em países desenvolvidos e em subdesenvolvidos. Eles usam não só o esgoto, mas a chamada água de segunda qualidade. Eu visitei a Tunísia (na África) e eles têm água salobra, que não pode ser aplicada em plantas sensitivas ao sal. Mas eles têm extensas plantações de tâmara, por exemplo, e utilizam essa água para irrigação. A tâmara cresce com solo e água de salinidade elevada.
O que precisa ser feito no Brasil em relação ao melhor aproveitamento dos recursos hídricos?
O novo paradigma para mim está baseado em duas palavras-chave: conservação – usar a água com mais parcimônia – e reúso. Na área de conservação, a primeira coisa é mudar nossa cultura de abundância. O brasileiro tem uma cultura de abundância infundada. Temos muita água no Norte, mas a grande demanda aqui embaixo não é
satisfeita. Vejo então a educação sanitária e a educação ambiental como fatores importantes.
Essa cultura do desperdício ainda está presente tanto nas atitudes do cidadão comum como na das empresas?
De forma geral sim. Por exemplo, o meu símbolo da cultura de abundância é a válvula de descarga (a mais comum). Se tiver bem regulada, essa válvula gera 2 litros (de água) por segundo. Se apertar o botão 10 segundos, são 20 litros. Nossa cultura não aceita muito a caixa acoplada, aquela que fica atrás do vaso. É bem mais econômica, mas nossa culturarecusa porque a vazão é pequena, demora muito para encher, tem que esperar para usar novamente. Outro problema da conservação são as perdas nos sistemas. Parte delas acontece nos vazamentos, erros de medida etc.
Qual comparação o senhor faria em relação ao reúso em outros países?
No Brasil, o reúso é incipiente. A indústria já entrou. Na agricultura, ainda está pouco avançado. Estados Unidos, França e Alemanha têm grande reúso. Os países do norte da África também. No México, tem o Vale do Mezquital. Todo o esgoto da Cidade do México, em torno de 80 metros cúbicos por segundo, é encaminhado para lá. Ali é uma região árida, quase não tem chuva. A rendaper capita, que já chegou a ser praticamente zero, está hoje acima de US$ 2.000, por causa da agricultura irrigada com esgoto.
O que falta no Brasil?
O governo não tem metas. Para ter um desenvolvimento grande do reúso, falta primeiramente ter vontade política. Precisa ter uma decisão para promover o reúso sob o pontode vista macro. A Agência Nacional de Águas teria que promover a prática, desenvolver tecnologias. Os comitês de bacias também poderiam fazer essa ação de promover a prática. Falta também um arcabouço legal. Não temos uma legislação adequada para atestar o padrão de qualidade para vários tipos de reúso. Muita gente quer aplicar a prática e questiona qual a qualidade da água para irrigar as hortaliças, para a lavagem de piso e de veículos. Não há ainda esses padrões oficiais.