A indústria automobilística brasileira tem praticamente a minha idade. Os primeiros modelos nacionais começaram a ser produzidos por aqui no final dos anos 50 e, com muito orgulho, gosto de dizer que acompanhei de perto sua evolução. E minhas primeiras considerações sobre um automóvel foram feitas - logicamente - do banco de trás.
Uma das principais constatações era, naquela época, óbvia: não era possível trafegar seguindo um DKW. Aquele motor dois tempos, queimando óleo, era fonte de um odor característico que impregnava o interior do veículo que vinha atrás, principalmente porque todos rodavam com as janelas abertas. Meu pai sempre xingava o motorista do DKW que ia na frente, ultrapassando-o rapidamente, às vezes esquecendo que ele mesmo estava dirigindo um desses poluidores. Nos dias de hoje ainda temos situações parecidas: você já tentou dirigir atrás de um daqueles, "pois é", carros mal cuidados queimando óleo do motor?
O problema atualmente, no entanto, é menos romântico e mais preocupante: cada um dos carros que circulam pelas ruas, mesmo que não queimem óleo nem sejam um velho DKW, está jogando na atmosfera gases e partículas altamente poluentes, mesmo que equipados com os mais modernos sistemas de redução e controle de emissões.
O maior vilão que sai do escapamento de um automóvel é o monóxido de carbono, gás invisível e inodoro, extraordinariamente tóxico, que pode matar uma pessoa em poucos minutos dependendo da quantidade inalada. Quem é que já não viu em filmes alguém se envenenar porque ficou dentro de uma garagem com o motor do carro ligado? É assim mesmo que acontece. Além do monóxido de carbono (CO), um motor emite também óxido de nitrogênio (NOx) e hidrocarbonetos livres (HC). Mas, por que isso acontece? O que realmente ocorre dentro de um motor para que sobrem tantos materiais indesejáveis?
Para gerar energia dentro de um motor acontece a queima do combustível, o álcool, a gasolina, o óleo diesel e outros, que liberam energia térmica (calor), energia mecânica (movimento), e água (vapor). O que sobra é a poluição. Para minimizar as emissões de poluentes (impossível zerar), a queima do combustível, ou a combustão, deve ser a melhor possível. O combustível é um hidrocarboneto composto de carbono (C) e hidrogênio (H), que, quando misturado ao oxigênio do ar (O2), se transforma em dióxido de carbono (CO2, ou gás carbônico, não tóxico e transformado novamente em O2 pela fotossíntese das plantas) e água. A fórmula dessa equação química, para quem gosta, é: CnH2n + O2 = CO2 + H2O. Para um motor a gasolina, a proporção de combustível é de cerca de 14:1, ou seja, uma parte de gasolina para 14 partes de ar. Para um motor a álcool, a proporção é de cerca de 9:1. Isso significa que é necessário mais álcool que gasolina, o que explica o maior consumo desse combustível. Note que na equação teórica não há monóxido de carbono (CO), o que não ocorre na prática. Motor mal regulado ou outros motivos fazem com que algumas moléculas de CO2 não se combinem, formando o terrível CO. Daí a importância de um motor eficiente, bem regulado e provido de sistemas inibidores de poluição. Nada disso existia no passado.
Antes do advento da injeção eletrônica de combustível, equipamento eficiente e bastante controlado por vários sensores, entre eles a sonda lambda, que informa imediatamente se os gases que passam pelo escapamento estão dentro dos limites pré-estabelecidos, o que fazia a mistura entre o ar e o combustível era o complexo e ineficiente carburador. Esse componente era muito instável, sujeito a desregulagens constantes devido ao uso e até mesmo às condições atmosféricas. Só que, mesmo com a tecnologia atual, a injeção eletrônica também não é perfeita, e pode fazer com que as emissões poluentes aumentem se não for feita a constante manutenção e verificação. É o que se propõe a atual "Inspeção Veicular".
Muita coisa está sendo feita para a redução das emissões de poluentes. Os sistemas de injeção estão cada vez mais eficientes, controlados eletronicamente, os motores incorporam cada vez mais recursos mecânicos para que a combustão seja melhor (coletores de plástico, comandos de válvulas variáveis e desenho da câmara de combustão mais favoráveis à turbulência da mistura são alguns exemplos) e os próprios veículos contam com equipamentos que reduzem o consumo e, conseqüentemente, a poluição, como os tais "pneus verdes" ou desenho de carroceria de menor arrasto aerodinâmico. Por fim, o combustível de melhor qualidade também é fundamental para que tenhamos menores emissões poluentes.
Nesse caso, é bom lembrar também do óleo diesel, cujos motores que equipam principalmente veículos comerciais também estão na mira do programa ambiental. Como o óleo diesel tem maior rendimento térmico que a gasolina ou o álcool, sua proporção de mistura é maior que 20:1, o que resulta em menores emissões de CO e CO2, só que com muito mais emissões de NOX, grande incentivador do aquecimento global. Mas o grande vilão do diesel é o enxofre, que causa excesso de fumaça quando o motor está desregulado e de partículas pesadas jogadas no ar (fuligem, causadora de muitos malefícios ao ser humano). Pode-se dizer que a manutenção de um motor a ciclo diesel dentro dos parâmetros originais e legais é mais crítico que no caso do motor a ciclo Otto, uma vez que é possível alterar a regulagem da alimentação para aumentar a potência do motor, só que aumentando muito a emissões de particulados.
Talvez tenha sido essa a razão de a "Inspeção Veicular" começar antes com os motores a diesel. Está claro que o poder público está coberto de motivos para intensificar os procedimentos de controle. De nada adianta a indústria criar carros cada vez menos poluentes se o seu usuário não o mantém dessa forma. Com a inspeção, qualquer veículo que não estiver dentro dos parâmetros definidos não poderá atualizar seu licenciamento. Então o que estão esperando? Façam a manutenção periódica e mantenha-os em ordem, poluindo o mínimo possível.