Temos centenas de boas práticas espalhadas pelo mundo e, portanto, não é por falta de exemplos que não seja possível ser sustentável. Talvez o que falte é um conhecimento disso tudo. Falta uma maior difusão das medidas que estão sendo adotadas, particularmente no Brasil, e políticos comprometidos em perseguir essa meta.
Faltam posicionamento e decisões políticas no sentido de transformar as cidades em sustentáveis. Perseguir uma coisa dessas significa sair do convencional, sair de uma administração convencional, onde muda-se o governo, mas não o pensamento sobre a cidade. Um bom exemplo é Curitiba, com o Ippuc (Instituto de Pesquisa e
Planejamento Urbano de Curitiba), que existe há várias gestões e possibilita que a cidade planeje seu futuro. Trocam os governos, mas continua lá um grupo de técnicos reconhecidos no âmbito internacional pensando a cidade.
Como deve ser a cidade sustentável no futuro e como a sustentabilidade deve ser trabalhada na área do transporte?
Podemos citar as características de uma cidade que busca a sustentabilidade. É preciso enxergar o sistema viário de forma diferente. No passado,
não existiam veículos. As pessoas circulavam pelas vias a pé ou de outras formas. Depois vieram os veículos e eles foram gradativamente tomando todo o espaço viário disponível. Infelizmente, o automóvel é muito ineficiente. Ele, em média, leva 1,5 passageiro. Então, uma faixa de 3 metros de largura destinada aos automóveis possibilita mais ou menos umas 1.500 pessoas por hora. A mesma faixa utilizada no transporte coletivo eleva esse número para 15 mil pessoas. Ou seja, dez vezes mais bem utilizada.
Então, se nós reclamamos que a cidade é um grande congestionamento de carros, que está tudo misturado, com tráfego misto, por que não separar esse tráfego por diferentes categorias? Em seguida, é preciso ter boas calçadas para um bom deslocamento de pessoas. Um transporte não motorizado que se complemente, por exemplo, por meio de bicicletas, mas num espaço fisicamente destinado a elas. Depois podemos pensar no transporte coletivo e, por fim, em veículos particulares. Tem que ser nessa ordem. E isso é absolutamente o inverso do que nós vivenciamos hoje nas cidades brasileiras, de uma forma geral.
Mas muitas cidades brasileiras já repensam suas políticas de transporte urbano. As atitudes tomadas estão corretas? o que ainda falta fazer?
Hoje, as cidades com mais de 500 mil habitantes já têm a incumbência de desenvolverem planos de mobilidade que, a princípio, deveriam ser planos de
mobilidade sustentável. Isso é um requerimento legal. Ao desenvolverem esses planos, as cidades estarão, de certa forma, discutindo essa questão. Quanto a isso virar realidade...
Como implantar novos sistemas de transporte públicos eficientes e sustentáveis sem causar grandes problemas já que a grande maioria das cidades está pronta, com traçados de ruas já definidos e em operação há anos?
A cidade está lá construída sim, mas ela é capenga, porque não está bem estruturada. A mobilidade não está com seu espaço bem definido. As calçadas são mal desenhadas, a prioridade para bicicletas é inexistente e, para ônibus, em todo o Brasil, existem apenas 500 km de vias prioritárias ou segregadas, o que é uma quantidade muito pequena. Nós estamos com uma doença que é o congestionamento e precisamos fazer cirurgias. É certo que toda cirurgia causa transtorno. A grande questão é quanto tempo as obras vão durar. Por aqui as coisas demoram muito para serem feitas. Nós precisamos ter um belo equacionamento e gerenciamento do que deve ser feito. Precisamos ter a questão financeira já toda resolvida. Não adianta começar uma obra para o próximo governo resolver depois. Essa é a pior decisão que existe. A obra precisa também ser bem planejada para, depois de começada, terminar logo. Isso já é uma bela
recomendação.
O que a sociedade pode fazer para que o transporte coletivo tenha prioridade na ocupação do espaço público, e não o automóvel?
Do que nós transportamos hoje nas cidades brasileiras, um terço é não motorizado. Estou falando em uma média geral das grandes cidades. Nesse grupo estão basicamente os pedestres, que realizam viagens de mais de 500 metros a pé. O outro terço é motorizado privado, fundamentalmente constituído de automóveis. O último terço é motorizado coletivo. Sendo assim, nós só temos dois terços dos deslocamentos urbanos sendo realizados ou por ônibus ou não motorizados, que não são igualmente contemplados no uso do espaço urbano, onde predominam automóveis. Então, existe uma iniquidade aí muito grande. O que acho que as
pessoas deveriam fazer é clamar pelos seus direitos. Falta a sociedade se dar conta disso, e os políticos entenderem que ao promover o transporte coletivo e o não motorizado, eles estão se endereçando a dois terços da população.
Qual seria o modelo de transporte ideal para o Brasil?
Um que seja sustentável ambientalmente, economicamentee financeiramente. Quando falamos em sustentabilidade ambiental, o metrô e o BRT (Ônibus de Trânsito Rápido, da sigla em inglês) podem ser viáveis. Mas quando entramos na questão financeira, começamos a fazer cortes. Não dá para dizer que o metrô é recomendado para todas as cidades. Ele está focado em corredores de altíssima demanda, que são pouquíssimos no país. Uma enorme quantidade de corredores de alta
demanda pode ser resolvida de outra forma. O transporte na superfície ainda tem muito a evoluir.
Hoje, nos ônibus, pensando em combustíveis, predomina a propulsão a diesel, mas há muitas evoluções visíveis, como o diesel mais limpo, os híbridos ou os movidos ahidrogênio e gás natural. Além disso, esses ônibus devem comandar o semáforo de forma que eles parem apenas nos pontos de parada. São apenas exemplos, não dá para dizer que exista uma solução para tudo. Não podemos dizer qual a solução para todas as cidades, cada corredor ou cada eixo de transporte precisa ser pensado individualmente.
Pensando na redução da poluição, o gás natural e os biocombustíveis já são uma realidade brasileira. Mesmo assim, os motores de automóveis no Brasil poderiam ser melhorados para evitar um consumo excessivo de combustível? Usar motores híbridos ou elétricos pode ser uma saída? O que falta para sua
implantação?
A tecnologia dos veículos híbridos ainda não apareceu no Brasil. Por aqui, nós estamos muito lastreados ao etanol que, do ponto de vista ambiental, é bem interessante.
Também já trabalhamos no biodiesel misturado ao diesel, mas ainda estamos falando de motores convencionais, e não de tecnologias de veículos híbridos. Esses modelos apresentam um potencial enorme de redução de poluição e também podem ser abastecidos com combustíveis mais limpos. Nós temos motores flex e até triflex (movidos a gasolina, etanol e GNV), mas sempre focamos no combustível. Falta ainda avançar em outras tecnologias que devem predominar no planeta, antes de no futuro aparecerem os carros movidos a hidrogênio. Existe o fator preço. Os veículos híbridos são mais caros e quem compra deve ter uma bela consciência ambiental. Eu não sei se alguém no Brasil estaria disposto a pagar mais por um veículo híbrido que tem a mesma cara de outro para dizer para o vizinho que o seu carro polui menos. A indústria, antes de lançar um produto, faz essa leitura de mercado. Talvez os consumidores sejam muito restritos e isso dificulte as vendas.
O Brasil irá receber a Copa em 2014, em 12 cidades-sede. Como transformar o projeto de adequação de cada uma delas num projeto de cidade sustentável?
O esqueleto de uma cidade sustentável passa por um bom sistema de transporte coletivo. A Copa pode ser a oportunidade para desenvolver projetos, como os sistemas integrados de alta produtividade tipo BRT. Uma vez isso implantado, o que tem que se buscar é uma série de medidas complementares, como, por exemplo, integrar esse sistema e facilitar ao máximo o acesso de pedestres. Tudo deve ser pensado em função desse sistema de alta capacidade. Depois, com o tempo, é importante pensar em medidas para o automóvel de forma a impedir que os congestionamentos continuem crescendo. Nós ainda temos muita motorização pela frente a ser enfrentada em nossas cidades. E aí é importante pensar em formas de restringir o uso de carros. Estamos falando de mais cobrança de estacionamento, mais restrição em vagas e também, eventualmente, taxação de congestionamento. Se o sujeito quiser mesmo usar aquela via em períodos mais críticos, ele deverá pagar por isso e o valor deverá ser repassado para o transporte coletivo.
E o Rio, que além da Copa, recebe a olimpíada em 2016. Como aproveitar a chance de ter dois grandes eventos e se transformar numa cidade mais “amigável”?
O caso do Rio é muito pontual. Muitos problemas têm a ver com a geografia da cidade e a forma como ela se consolidou. Há coisas muito específicas e, por isso, imaginar a realização das Olimpíadas como solução de tudo é complicado. A gente pode imaginar, no campo do transporte, que esta é uma ótima oportunidade para consolidar sistemas como o BRT. O projeto ainda prevê a ampliação de linhas de metrô, mas é claro que tudo isso vai depender da quantidade de recursos que estarão disponíveis. Vejo o problema da Copa mais fácil de ser resolvido do que o das Olimpíadas.
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Na Copa, vai ser preciso pensar em soluções para levar as pessoas do aeroporto para os hotéis e desses para os estádios ou centros de grande circulação. Enquanto nas Olimpíadas o problema é múltiplo. Serão muitas atividades distintas acontecendo em diversos lugares simultaneamente. Vai ser preciso deslocar muitos atletas e garantir que a família olímpica tenha condições especiais de circulação para não atrasar nos eventos ou ser obrigada a ficar muito tempo parada em congestionamento, o que pode interferir até no desempenho durante as competições.
Um bom sistema de transporte pode garantir melhorias na questão da segurança do Rio de Janeiro, a exemplo do que aconteceu em Bogotá, na Colômbia, com a implantação do sistema de BRT?
Bogotá teve um trabalho desenvolvido nos bairros que não necessariamente dependeu apenas do BRT. Em algumas regiões foram melhoradas as condições da infraestrutura para pedestres e ciclistas. Veja que ainda falamos de transporte, mas agora do não motorizado. Por lá, foram introduzidas boas calçadas, boas ciclovias, bibliotecas e áreas de lazer. Tudo isso tem reflexo positivo na questão de segurança. No Rio, se forem feitas essas revoluções nas áreas de menor renda, é claro que trará benefícios para a cidade. Isso garante o resgate da cidadania, mas o pacote tem que ser completo. Não adianta facilitar o acesso em um só local.