Há dez anos que a AEA (Associação de Engenharia Automotiva) tem discutido a Inspeção Técnica Veicular. A entidade tem defendido a implementação da inspeção como forma de reduzir acidentes e a emissão de poluentes na atmosfera. Em 2006, a AEA recebeu visita da diretoria do Denatran para tratar das normas da inspeção, mas continua vendo (com preocupação) o projeto sendo postergado por razões políticas. Falando com exclusividade para a REVISTA CESVI, o diretor de segurança veicular da AEA, Harley Bueno, falou sobre o atraso do Brasil diante de outros países e a relação da ITV com um diagnóstico sobre acidentes no País.
Por que a AEA se envolve com a questão da Inspeção Técnica Veicular?
Porque temos todo um trabalho voltado para a segurança no trânsito, e acreditamos que a ITV é indispensável para termos uma série de indicadores seguros sobre as causas dos acidentes de trânsito no País. Principalmente porque teríamos estatísticas sólidas sobre a relação entre a manutenção do veículo e o número de acidentes. Com a ITV, estimularíamos a manutenção preventiva, já que as pessoas querem ter seus carros aprovados na inspeção. Se, com a consolidação da ITV, os índices de acidentes caírem, teremos como medir a importância da manutenção do veículo para a segurança do trânsito. E, com esta informação, partir para uma série de ações.
Por sua experiência, você acha que a ITV chegará a essa constatação?
Sim. Todas as estatísticas internacionais relacionadas à ITV apontam o freio como item com mais problemas nas avaliações. E um problema no freio, você só constata por meio de uma inspeção mecanizada. Não adianta ver as luzes e outros sistemas do veículo, se o freio não for verificado com precisão. Se você não consegue parar o
carro, não tem como evitar um acidente.
E por que a ITV está há tanto tempo no Congresso sem uma decisão pela implementação?
A questão é meramente política. Não decidem se a ITV vai ter controle municipal, estadual ou federal. Seria muito importante que houvesse uma consciência pública dos legisladores que deixasse as divergências políticas em segundo plano, em prol da redução da mortalidade no nosso trânsito.
Estamos muito atrasados?
Claro, é importante frisar que a ITV não é nenhuma novidade. O Chile, para ficar num exemplo de país da América Latina, faz ITV há cerca de dez anos. Estaremos entre os últimos a implementar. A consequência disso? Na Europa, um carro mais velho tem totais condições de circular, às vezes mais do que carros brasileiros mais novos. Porque lá a ITV estimula a manutenção.
Quando a ITV for implementada, a AEA terá alguma participação?
As normas vigentes para a ITV são de dez anos atrás. Requerem, portanto, uma atualização, até para estarem de acordo com a nova legislação da Europa. A AEA atuará nesta atualização das normas. O veículo mudou muito nos últimos dez anos, principalmente no Brasil. E a mudança será ainda mais significativa com a obrigatoriedade
de airbag e ABS. Por enquanto, queremos nos adiantar e ir apurando alguns dados importantes para a criação de estatísticas. Queremos fazer com o CESVI um “pit stop” numa grande rodovia paulista, para verificar as condições dos caminhões que trafegam no local. É uma iniciativa para a sociedade ter maior conhecimentosobre o nível de segurança dos caminhões que rodam pelas nossas estradas.
Acha que a renovação de frota é viável?
Acho, inclusive porque o governo brasileiro tem tido uma atitude muito positiva, de estimular uma renovação de frota “branca”, indireta e não impositiva. Quando o governo abaixa juros, quando corta imposto, a sociedade tem mais condições de trocar seus carros por modelos mais novos, e a frota vai sendo renovada, sem que haja uma legislação obrigando.