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Etanol embala retomada sucroalcooleira
19/2/2010
Fabiana Batista

O segmento sucroalcooleiro começa uma nova safra no Brasil, em março, com a percepção de que está diante do início de um novo ciclo virtuoso alimentado pela boa demanda internacional por açúcar e pela flagrante renovação das apostas na consolidação do etanol como combustível global competitivo, renovável e mais limpo.
           
No curto prazo, os estoques apertados dos dois principais subprodutos da cana tendem a sustentar cotações e melhorar as margens das usinas. Somados à circulação menos restrita de crédito, os bons preços deverão paulatinamente deixar para trás dois anos de caixa vazio, quebra de empresas e contenção de aportes - e, estruturalmente, de mudança de perfil.
           
Se por um lado representou bilhões de dólares em investimentos represados e frustração em importantes polos canavieiros do Centro-Sul, por outro a crise acelerou transformações que, em boa medida, esbarravam nos bolsos cheios de usineiros históricos.
           
É verdade que, mesmo com o cenário adverso, a Cosan, maior companhia sucroalcooleira do mundo, reinventou gestão e negócios e tornou-se fundamentalmente um grupo de combustíveis, sobretudo após a parceria com a anglo-holandesa Shell, também interessada em transformar o etanol em commodity.
           
Mas players tradicionais como os também paulistas Santelisa Vale e Moema foram incorporados por multinacionais em migração para a energia renovável - Louis Dreyfus e Bunge, respectivamente -, e novos players nascidos no país na maré favorável de 2007, como ETH e Brenco, uniram forças antes de retomar promessas de expansões.
           
Apesar da mudança de quadro, coroada pelo atestado da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos de que o etanol de cana é mesmo um "biocombustível avançado", o que deixa o produto sem concorrentes economicamente viáveis, a volta dos grandes investimentos deverá ficar para a próxima safra (2011/12).
          
 E isso por uma razão simples: produzir está caro e os custos dos projetos também subiram com as boas perspectivas, mesmo que as empresas ainda tenham ajustes a efetuar seja por dificuldades do passado recente ou pelos trabalhos de integração em curso.
           
A valorização do real em relação ao dólar em 2008 e 2009 pesou bastante no encarecimento da atividade. Segundo a consultoria Datagro, entre 2002 e 2010 os custos de produção quase triplicaram. Em 2002, a produção de um litro de álcool anidro (misturado à gasolina) custava 17 centavos de dólar, valor que em 2010 já estava em 45 centavos de dólar.
           
Conforme Plínio Nastari, presidente da Datagro, por essas e outras o investimento para se construir uma nova usina no Centro-Sul saltou, na mesma comparação, de US$ 35 a US$ 40 por tonelada para entre US$ 100 a US$ 110 a tonelada de cana processada. Esse valor recuou nos anos de crise, mas já voltou a aumentar com o cenário otimista.
           
Na mesma comparação, se for descontada a inflação, o preço do álcool recuou. Da safra 2002/03 para a 2009/10, os preços médios do anidro vendido pelas usinas às distribuidoras (sem impostos) caíram de R$ 1,12 o litro para aproximadamente R$ 0,99, segundo dados do Cepea/Esalq já deflacionados pelo IGPM.
           
Independentemente da equação, Antônio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), lembra que novos aportes serão necessários. "Até 2015, o consumo interno de álcool deve dobrar de 26 bilhões para 50 bilhões de litros, e a demanda externa pelo produto brasileiro pode chegar a 15 bilhões de litros. Isso exigirá investimentos US$ 50 bilhões em novas usinas de etanol. Mas tais aportes ainda não estão acontecendo".
           
Apesar de os preços do açúcar estarem em patamares recordes e terem até ajudado a abreviar a agonia de algumas usinas, a decisão de implantar um projeto greenfield de usina (construção a partir do zero) normalmente não considera os preços praticados em uma única temporada.
           
"Nas nossas avaliações de taxa de retorno, não compensa neste momento construir um greenfield. O retorno não é adequado", confirma Jacyr Costa Filho, CEO da Açúcar Guarani, pertencente ao conglomerado francês Tereos.
           
É por isso que grande parte dos aportes em andamento limitam-se a ampliar a produtividade agrícola e a melhorar processos industriais. A própria Guarani faz isso na unidade São José, em Colina (SP), que na nova safra terá capacidade de moagem de cana de 3,6 milhões de toneladas, 700 mil a mais que em 2009/10. "Os bons resultados desta próxima safra devem estimular novos investimentos", diz Jacyr.
           
Os preços atuais do açúcar, afirma Plínio Nastari, viabilizam projetos, mas a questão central para o segmento, agora, é ampliar sua competitividade, até por conta dos maiores custos de produção. "O capital está sendo empregado em modernização de ativos, aumento de eficiência energética e diversificação de produtos. Busca-se também a flexibilidade da produção entre açúcar e álcool para que se possa captar os melhores preços".
           
As indústrias de base que fornecem equipamentos para usinas corroboraram a tendência de mais investimentos, mas menores. Líder nesse mercado, a Dedini, de Piracicaba (SP), é exemplar. A empresa projeta vendas de R$ 1,3 bilhão em 2010, 25% mais que em 2009 mas longe do recorde de R$ 3 bilhões de 2007, quando havia mais projetos do que cana.
           
A curva ascendente do número de novas usinas estreantes em todo o país tornou-se mais aguda em 2005, quando cinco unidades entraram em operação, segundo a Job Economia e Planejamento. Em 2006 foram 12, em 2007 mais 17 começaram a rodar e em 2008, mesmo com os sinais de que tempos difíceis viriam, foram 29.
           
Dali em diante, dezenas de projetos ficaram pelo caminho e os que avançaram o fizeram com empréstimos-ponte, endividamento a juros altos, venda de ativos e consolidações. Com isso, aponta a Job, 20 usinas entraram em operação em 2009 e a previsão para 2010 é de 15 estreias, o que levará o número total para 472.
           
Esse "efeito inercial" de projetos que não podiam parar colaboraram para manter os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em alta. Em 2010 mais R$ 6 bilhões do banco de fomento devem chegar ao segmento, mesmo nível do ano passado.
           
Neste ponto o ambiente futuro favorável ao etanol, nos mercados domésticos e - sobretudo - internacional, ajuda a garantir, no mínimo, a aceleração da retomada de novos investimentos. "A chancela do EPA [a agência ambiental americana] vai dar mais segurança para o investidor continuar apostando na produção do etanol", diz Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da Unica.
           
Nesse sentido, observa Velasco, o próximo passo é vencer a batalha no Congresso dos EUA, ainda este ano, para derrubar a tarifa de importação que o país impõe sobre o etanol. Daí o quadro para a consolidação de uma commodity global e para a multiplicação de aportes no Brasil estará completo.
 
 
Aval de agência é 'passaporte' do combustível
 
 
Depois de duas safras de preços do etanol pouco ou nada remuneradores, as empresas brasileiras que atuam no ramo já tiveram em 2010 duas notícias de peso para o futuro dos negócios com o combustível no mercado externo.        

O primeiro foi o reconhecimento, pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos, de que o álcool de cana do Brasil é um "biocombustível avançado", o que tende a quebrar resistências e facilitar a abertura de mercados para o produto em outros países. O segundo, ligado ao primeiro, foi a efetiva entrada de grandes petroleiras no segmento, o que também deve facilitar a disseminação da "nova" commodity.

Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da União das Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), observa que, agora, é preciso continuar trabalhando pela redução da tarifa americana sobre as importações de etanol - ou pelo menos para que ela não seja renovada quando expirar, em 31 de dezembro de 2010.

"O reconhecimento da EPA nos dá credibilidade para pedir a redução da tarifa. Mas já há argumentos do outro lado de que o etanol brasileiro já teve o 'privilégio' de ser considerado melhor ambientalmente, e que a redução ou o fim da tarifa iria prejudicar em demasiado os produtores de etanol americanos", diz Velasco.

Também prejudicadas pela crise financeira mundial, muitas indústrias de etanol dos EUA viveram momentos difíceis mesmo com os subsídios do governo, o que é usado hoje como apelo político. Estima-se no mercado que 22 usinas de etanol das 186 existentes estão atualmente paralisadas no país.

A tarifa de importação é de 0,54 centavos de dólar por galão de etanol vendido e limita as exportações do Brasil. Mário Silveira, analista da FCStone, esclarece que a exportação aos Estados Unidos acaba sendo viável apenas em momentos de oscilações cambiais ou baixos preços no mercado brasileiro, como em época de safra.

Assim, reforça Marcos Jank, presidente da Unica, se a tarifa não cair, será difícil conseguir exportar em volumes significativos. "Hoje 15% do álcool do Brasil é exportado. Até 2011 podemos atingir 20%, mas isso vai depender de como essa combinação do reconhecimento do EPA vai se dar com a redução tarifária, que é alta nos Estados Unidos e em outros países", diz.

As argumentações brasileiras na EPA começaram há um ano e meio e só há duas semanas veio o reconhecimento da agência. Para ser considerado "avançado", um biocombustível precisa emitir, no mínimo, 50% menos CO2 do que a gasolina. E o etanol reduz em 61% essa emissão. Melhor que isso: só o etanol de celulose, ainda em pesquisas e no campo das promessas, aparece como ambientalmente melhor.

André Nassar, diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), conta o longo percurso para alterar a definição anterior da EPA, que inicialmente considerava que o etanol de cana do Brasil reduzia apenas em 26% a emissão de CO 2na comparação com a gasolina.

"O mais difícil foi explicar e convencer o órgão americano de que o crescimento da área plantada de cana não estava indo para a Amazônia, mas para pastagens e áreas já ocupadas com agricultura, sobretudo grãos", diz o diretor do Icone, que trabalhou para a Unica na argumentação sobre o uso da terra.

Segundo a legislação americana, o uso de biocombustíveis em 2010 no país será de 49 bilhões de litros, dos quais 760 milhões de litros são reservados para biocombustíveis avançados - ou seja, o etanol de cana. O volume é irrisório mesmo em comparação ao que o Brasil já exporta aos EUA, mesmo com tarifa.

Em 2009, por exemplo, que foi um ano de exportações mais magras, o volume enviado atingiu 2,7 bilhões de litros. Isso somente em exportações diretas, ou seja, sem considerar o volume que entra nos EUA depois de triangulações por países da América Central.

Mas o ambicioso programa americano, que prevê uma progressiva ampliação até o pico de 136 bilhões de litros de biocombustíveis até 2022, determina para 2015 o uso de 5,7 bilhões de litros do produto avançado. E nessa categoria, até agora, só o Brasil. 


Valor Econômico

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