"Se não houver mudança nos padrões de consumo e produção, em menos de 50 anos já serão necessários mais de dois planetas Terra para atender nossas necessidades de água, energia e alimentos."
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Foto: Júlio Fernandes |
POR LIVIA CEREZOLI
O sinal de alerta no quesito consumo já foi aceso há algum tempo. Hoje, a quantidade de produtos consumidos pela humanidade já é 30% maior do que a capacidade de renovação dos recursos naturais existentes no planeta. Por isso, é preciso agir antes que seja tarde demais. A constatação é do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, uma organização não governamental criada em 2001, dentro do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. A palavra Akatu tem origem tupi e significa “semente boa” e “mundo melhor”.
O instituto surgiu depois da percepção de que as empresas só aprofundariam, no longo prazo, suas práticas de responsabilidade social na medida em que os consumidores passassem a valorizar essas iniciativas em suas decisões de compra. Com ações educacionais e de publicidade, o Akatu conseguiu atingir no último ano um público indireto de mais de 500 mil pessoas. De acordo com o diretor-presidente da organização, Helio Mattar, “é nítido o crescimento da proporção de consumidores que usam seu poder de compra e de comunicação para premiar empresas que tenham práticas adequadas de responsabilidade social e ambiental”.
Mattar trabalhou durante 22 anos como executivo em empresas nacionais, multinacionais e dele próprio. Foi secretário de Desenvolvimento da Produção do
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, um dos fundadores do PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), co-fundador e membro do Conselho do Instituto Ethos e diretor-presidente da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente. Ele conversou com a revista CNT Transporte Atual por e-mail.
Confira a entrevista.
O que é consumo consciente? Como ser um consumidor consciente?
Todo consumo causa impacto (positivo ou negativo) na economia, nas relações sociais, na
natureza e em cada indivíduo. Nesta medida, ao ter consciência desses impactos na hora de decidir por que comprar e o que comprar, o consumidor pode buscar aumentar os impactos positivos e diminuir os negativos e, assim, contribuir para um mundo e uma
sociedade mais sustentáveis. Isso é consumo consciente. Em poucas palavras, é um consumo com consciência de seus impactos, voltado à sustentabilidade da vida no planeta. O consumo consciente pode ocorrer nos gestos mais simples do cotidiano, como fechar a torneira ao escovar os dentes; apagar a luz ao sair de um ambiente; desligar um aparelho eletrônico quando não está sendo necessário; ler um rótulo atentamente antes da compra; usar integralmente os alimentos; optar por detergentes biodegradáveis; usar os produtos até o final de sua vida útil; dar preferência a produtos com selos de certificação e separar o lixo para reciclagem.
Qual o maior problema gerado pela falta de conscientização na hora de adquirir produtos?
Hoje, a humanidade já consome 30% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação da Terra. E isso ocorre quando apenas 25% da humanidade consomem acima de suas necessidades. Os outros 75% consomem o mínimo ou abaixo do mínimo necessário a uma sobrevivência digna. Se o atual modelo de consumo dos habitantes mais ricos do planeta viesse a ser praticado por toda a humanidade, quatro planetas Terra não seriam suficientes para suprir todo esse consumo. Se não houver mudança nos padrões de consumo e produção, em menos de 50 anos já serão necessários mais de dois planetas Terra para atender nossas necessidades de água, energia e alimentos. Não é preciso dizer que essa situação certamente ameaçará a vida no planeta, inclusive a da própria humanidade. As escolhas de consumo têm muito a contribuir para a solução dessa situação.
Quais os outros prejuízos que o consumo sem controle pode trazer?
Quando adquirimos um produto, não compramos apenas o que vemos, mas todo o ciclo de produção daquele bem, que exigiu matéria-prima, água, energia, transporte e trabalho. Assim, ao se desperdiçar um dado bem, como é o caso dos alimentos, se está desperdiçando ao mesmo tempo tudo aquilo que foi usado em seu processo de produção.
O brasileiro já é um consumidor consciente? O que falta fazer para que isso se torne uma prática em nosso país?
Em 2003, o Akatu desenvolveu uma maneira de medir a consciência do cidadão brasileiro no consumo. De acordo com essa pesquisa, o consumidor pode ser categorizado em quatro grupos quanto à sua consciência a partir da prática ou não de cada um dos 13 comportamentos principais de consumo. O primeiro grupo envolve os comportamentos de economia, como fechar a torneira para escovar os dentes e apagar a luz ao sair de um ambiente, praticados por 75% da população brasileira. O segundo envolve os comportamentos de planejamento - planejar a compra de alimentos e a compra de roupas, e ler os rótulos antes de comprar, praticados por 45% da população. O terceiro grupo envolve os comportamentos de compra sustentável – comprar produtos orgânicos e compartilhar informações sobre empresas e produtos, praticados por 28% dos brasileiros. E, finalmente, o quarto envolve os comportamentos de reciclagem, como fazer a separação do lixo e usar o outro lado da folha de papel, praticados por 31% da população.
Esses resultados revelam uma característica importante: quanto mais imediatos e mais individuais os impactos dos comportamentos de consumo, maior a proporção da população que os praticam. Quanto mais distantes no tempo e mais coletivos os impactos dos comportamentos de consumo, menor a proporção da população que os praticam.
Aqueles consumidores que praticam entre 11 e 13 dos comportamentos analisados na pesquisa são considerados “conscientes” e representam 5% da população brasileira. Os que praticam entre 8 e 10 comportamentos são considerados “engajados” e representam 28% da população. Os que praticam entre 3 e 7 comportamentos são considerados “consumidores iniciantes” e representam 59% da população. E os que praticam entre 0 e 2 comportamentos são considerados “consumidores indiferentes” e representam 8% da população.
O que diferencia os consumidores mais conscientes - incluindo os conscientes e os engajados - do restante da população?
Pode-se dizer que conscientes são consumidores que não se preocupam apenas com os impactos sobre si próprios, mas também com os impactos sobre os outros. É interessante também analisar o grupo de consumidores mais conscientes quando comparados à população em geral em outros comportamentos não incluídos nos 13 comportamentos do teste. Como exemplo, 51% dos consumidores mais conscientes já fizeram alguma compra tendo como principal critério seus efeitos (positivos ou negativos) sobre o meio ambiente, enquanto que esse número é de 41% na população em geral.
Podemos concluir então que a decisão de compra do consumidor brasileiro já está baseada, mesmo que de forma um pouco tímida, nas ações ambientais praticadas pelas empresas?
Segundo outra pesquisa do Akatu, cresceu em 7 pontos percentuais - de 36% em 2005 para 43% em 2006 - a proporção de consumidores que usam seu poder de compra e de comunicação para premiar empresas que tenham práticas adequadas de responsabilidade social e ambiental. O que mostra que a consciência no consumo é também levada à apreciação das empresas sob critérios sociais e ambientais e não apenas os tradicionais critérios de preço, qualidade, inovação e design. Esse cenário indica uma clara tendência, que, felizmente, vem para ficar, a de uma atenção crescente
às questões ambientais e sociais pelos consumidores.
Hoje, a humanidade já consome 30% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação da Terra. Reduzir o volume de resíduos produzidos diariamente também faz parte das práticas do consumo consciente.
No Brasil, o tratamento dado ao lixo é correto?
Para se ter uma ideia, o montante de lixo produzido no Brasil todos os dias daria para “pavimentar”, com 11 centímetros de lixo, as duas pistas de uma estrada com 500 km de extensão. É um volume imenso de lixo. Naturalmente, esse lixo precisa ser coletado, transportado e destinado pelo poder público, o que custa grande quantidade de dinheiro, que poderia ter uma destinação mais nobre como a educação e a saúde da população. Em geral, mesmo tendo conhecimento dos problemas derivados do consumo, as pessoas consideram que, individualmente, seu consumo faz pouca diferença e, por isso, não consideram que valha a pena mudar a sua forma de consumir. Para exemplificar que isso não é verdade, tomando como exemplo o caso do lixo, o Akatu fez um cálculo que mostra que uma única pessoa, ao longo de sua vida (72 anos, em média, no Brasil), produz lixo suficiente para encher até o teto um apartamento de 50 metros quadrados. Se isso parece pouco, basta fazer esse cálculo para cinco famílias de quatro pessoas, que precisarão de um prédio inteiro de dez andares, com dois apartamentos de 50 metros quadrados por andar, para colocar o lixo que produzirão durante a sua vida. É importante lembrar que, no longo prazo, o impacto dessas pequenas atitudes ultiplicado
por um número cada vez maior de indivíduos que vivem cada vez mais tempo, define o futuro do planeta em que vivemos. Apesar de gestos simples de consumo, tais atos causam uma reação em cadeia, levando os impactos a percorrerem a sociedade e o meio ambiente e fazendo sentir seus efeitos sobre todos.
A crise financeira que se instalou no mundo desde o fim de 2008 pode ser uma boa aliada do consumo consciente? A baixa financeira pode ser um instrumento de educação para se evitar desperdícios?
O consumo consciente pode ser exercido sempre, independentemente da crise econômica. Contudo, a crise é uma oportunidade de repensar e de educar o consumo, planejar suas compras e usar os produtos até o final de sua vida útil, só comprando um novo quando for realmente necessário. Isso vale para qualquer produto, de alimentos a eletrodomésticos, de roupas a automóveis. E é também uma oportunidade de perceber que, com mudanças simples em atitudes do cotidiano, podemos economizar e evitar o desperdício. É um bom momento, portanto, para pensar sobre o consumo consciente.
A utilização do transporte público pode ser uma forma de consumo consciente. Mas no Brasil, ele nem sempre é de qualidade. Além disso, são poucas as opções de trens urbanos e até mesmo de ciclovias no país. Qual seria o modelo de transporte ideal para o Brasil?
A solução passa por um conjunto de ações. Em cada cidade, seria preciso identificar alternativas para a própria organização espacial das atividades naquele local. Esse planejamento inclui induzir a população a residir em locais mais próximos de onde se localizam suas atividades, criar alternativas de qualidade para o uso do automóvel, como é o caso do transporte coletivo e das ciclovias e fazer campanhas de conscientização sobre os benefícios da mudança do padrão de uso do automóvel em termos da redução dos impactos negativos causados pelo uso do transporte individual. É importante ressaltar que as campanhas de conscientização apenas não bastam se não forem oferecidas condições para que os habitantes da cidade optem por outra forma de transporte além do automóvel. O transporte público tem de ser seguro, rápido e confortável para que as pessoas se disponham a deixar o carro em casa.
Da mesma forma, as pessoas só usarão bicicletas como meio de transporte se forem oferecidas condições básicas, como ciclovias ou ruas em que seja possível pedalar sem correr o risco de acidentes, além de bicicletários onde as bicicletas possam ser deixadas com segurança. Para que as pessoas andem a pé, é preciso que os caminhos sejam seguros e agradáveis, que as calçadas não tenham buracos e nem sejam invadidas por carros ou motos.