Um conceito que já é realidade em muitas empresas do Brasil e tem ganhado espaço nos últimos anos é o da LR (logística reversa). Com o consumo exagerado de produtos de todas as espécies, torna-se imprescindível criar alternativas para que haja o retorno dos bens usados ao ciclo produtivo para a reciclagem, re-manufatura ou para que seja dada a destinação correta.
No Brasil, há experiências relevantes de empresas que investem em gestão ambiental e acompanham o ciclo de vida dos seus produtos. Outras têm desenvolvido iniciativas de LR pós-venda, garantindo maior fidelização com o cliente.
Os ganhos dessas duas aplicações podem passar pela melhoria da imagem, redução de custos em alguns casos, aumento da competitividade e até aquisição da certificação ISO 14.000 - que engloba um conjunto de normas que estabelecem diretrizes sobre a gestão ambiental dentro das empresas, desenvolvidas pela ISO (Organização Internacional para a Padronização, na sigla em inglês).
O assunto vai ser tema do 1º Fórum Internacional de Logística Reversa, no dia 13 de maio, no Bourbon Convention Ibirapuera, em São Paulo (SP). Na ocasião, os participantes poderão trocar informações e conhecer vários cases de aplicação da LR no Brasil e no mundo.
O fórum é promovido pelo CLRB (Conselho de Logística Reversa do Brasil), criado em 2008, para difundir as práticas de logística reversa e incentivar as atividades de empresas nesse sentido.
Segundo o presidente do CLRB, professor e engenheiro Paulo Roberto Leite, há quase 15 anos o conceito de LR não estava tão difundido, mas hoje a aplicação é extremamente necessária. "De uns tempos para cá, o mundo ficou louco em termos de consumismo. E essa profusão de produtos que chegam ao mercado tem que voltar (para o ciclo produtivo). Não tem mais onde colocar", diz Leite, referindo-se à necessidade da adoção de medidas de LR pós-consumo. Uma das situações mais graves é em relação ao lixo eletrônico.
Segundo Leite, que pesquisa o assunto desde 1998, são produzidas por ano em todo o mundo 50 milhões de toneladas desse tipo de lixo. "É uma quantidade absurdamente grande. Se as embalagens descartáveis faziam medo, e ainda fazem, hoje o lixo eletrônico é muito preocupante", diz o engenheiro, que também é autor do livro "Logística Reversa – Meio Ambiente e Competitividade" (Prentice Hall Brasil, 272 págs., R$ 79). Atualmente, ele é professor da Universidade Mackenzie (SP).
Esse retorno ao ciclo produtivo pode se dar nos mais diferentes tipos de produtos. Para exemplificar a produção exagerada de bens de consumo que remete à necessidade de ações de LR, o professor cita números do Brasil.
Segundo ele, por ano, 20 bilhões de unidades de garrafas PET vão para o mercado brasileiro. De 2005 para 2006, por exemplo, a venda de notebooks aumentou 110%, conforme Leite. "São crescimentos assustadores."
Uma empresa que investe na LR pós-consumo é a Autoglass, distribuidora e prestadora de serviços na área de vidros automotivos. Com sede em Vitória (ES) e 17 unidades espalhadas por todo o Brasil, a Autoglass, além de vender o produto, há cerca de um ano, executa um mecanismo de coleta dos resíduos (vidros quebrados) para o encaminhamento à reciclagem. Esse material é transformado em vasilhames, garrafas e frascos de perfume.
O trabalho é realizado por meio do Instituto Autoglass Socioambiental de Educação. São recolhidas cerca de 30 toneladas de material por mês. De acordo com o diretor-comercial da empresa, Fernando Carreira, há uma grande preocupação ambiental em relação ao produto. "Se chegar a um aterro sanitário, o vidro não degrada. Nosso propósito é tratar esse material e queremos alertar o consumidor de que os resíduos gerados pelo carro dele podem prejudicar mais o meio ambiente do que o CO2 que sai do escapamento", diz Carreira.
O diretor-comercial alerta ainda que no momento da troca de bateria, pneu, óleo e filtros do automóvel, o consumidor deve verificar se o prestador do serviço tem uma preocupação ambiental em relação à destinação desses materiais. De acordo com Carreira, o principal ganho que a Autoglass tem com a LR pós-consumo se refere à imagem da empresa como pró-ativa em relação ao meio ambiente. Segundo ele, a venda do reciclado não paga os custos com o processo.
A reciclagem do vidro automotivo precisa ser feita em locais especializados, explica, porque é necessário separar antes uma espécie de plástico que há nesse produto. "Essa separação não é feita em qualquer local de reciclagem. No Brasil, há um ponto em São Paulo e outro no Rio Grande do Sul", diz. Neste ano, o diretor espera que a empresa consiga a certificação ISO 14.000.
Na área de LR pós-venda, uma experiência que se destaca no Brasil é o serviço dos Correios, que faz a captação de produtos devolvidos ao fabricante em função de algum defeito ou desistência da compra, por exemplo. O trabalho dos Correios envolve tanto o consumidor final como a empresa que vendeu o produto e seus parceiros.
Segundo o gerente-corporativo do departamento comercial de encomendas dos Correios, Ricardo Fogos, um segmento que utiliza muito a LR pós-venda é o de telefonia. O telefone celular coletado na casa do cliente por apresentar algum problema é levado a um centro de assistência técnica, para que possa voltar para o cliente o mais rapidamente possível.
"Muitos empresários estão investindo na logística reversa pós-venda devido à fidelização. Eles entendem que a solução rápida de um problema do cliente e a garantia do bom atendimento fazem com que esse cliente acabe voltando para a marca", diz o gerente.
Atualmente, os Correios têm 2.000 empresas clientes que usam o serviço voltado para a LR pós-venda. Em 2008, as encomendas somaram 1,6 milhão, gerando um faturamento de R$ 37 milhões. Entre os produtos comercializados no e-commerce (comércio eletrônico), por exemplo, o CLRB estima que haja uma taxa de retorno em torno de 10% a 15%.
Na opinião de Fogos, o conceito da logística reversa voltada para o pós-venda já está bem amadurecido no Brasil. Entretanto,ele considera que no caso do pós-consumo ainda falta avançar mais em ações. "Nesta última década, o empresariado se convenceu sobre a importância de cuidar do pós-venda para que o cliente retorne. Agora, a preocupação que deve vir com mais força é sobre o pós-consumo, que está ligado à sustentabilidade. A reciclagem e reutilização de produtos têm crescido muito."